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Santo André, São Paulo, Brazil
Psicóloga Clínica Suzy Mosna, Crp 06-75752. Especialista em Terapia de casal e família, relacionamentos e neuropsicóloga. Professora de Psicologia.

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Psicóloga Suzy Mosna

Terapia de Casal • Ansiedade • Autoestima • Orientação Vocacional

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Psicóloga Suzy Mosna, Terapia individual, casal e família. Escritora do Livro Quando o vilão não sua mascara - Psicóloga Santo André Abc São Paulo


 

O Mito de Narciso e o Nascimento de um Conceito Psicológico

Muito antes de existirem consultórios, diagnósticos ou estudos científicos sobre a personalidade humana, os povos antigos já utilizavam histórias para explicar comportamentos que pareciam difíceis de compreender.

A mitologia grega é um dos maiores exemplos dessa tentativa de entender a natureza humana por meio de narrativas simbólicas. Entre essas histórias, poucas se tornaram tão conhecidas e tão relevantes para a psicologia quanto o mito de Narciso.

Segundo a lenda, Narciso era um jovem de extraordinária beleza. Sua aparência despertava admiração por onde passava. Homens e mulheres se encantavam com sua presença. Todos desejavam sua atenção. Todos queriam seu amor.

Mas Narciso possuía uma característica que o impedia de construir vínculos verdadeiros.

Ele não conseguia enxergar ninguém além de si mesmo.

As pessoas ao seu redor eram ignoradas, rejeitadas ou tratadas como irrelevantes. Seus sentimentos não despertavam interesse. Seus sofrimentos não provocavam compaixão. Seus afetos não encontravam reciprocidade.

Narciso admirava apenas uma coisa.

A própria imagem.

Conta a história que, certo dia, ao aproximar-se de um lago cristalino, viu seu reflexo na água. Encantado pela própria beleza, permaneceu observando aquela imagem por horas, dias e, segundo algumas versões da narrativa, até morrer consumido pela obsessão.

É uma história antiga.

Mas sua mensagem permanece assustadoramente atual.

A imagem do jovem que não consegue olhar para além do próprio reflexo tornou-se uma poderosa metáfora psicológica.

O narcisismo não representa apenas amor por si mesmo.

Na verdade, representa uma incapacidade profunda de estabelecer relações equilibradas com os outros.

A pessoa narcisista precisa constantemente olhar para si. Precisa ser admirada. Precisa sentir-se especial. Precisa acreditar que ocupa uma posição diferenciada em relação às demais pessoas.

Quando isso não acontece, surgem sentimentos intensos de raiva, frustração, vergonha ou humilhação.

Ao longo dos anos, a psicologia utilizou o mito de Narciso para descrever diferentes aspectos do funcionamento humano.

Sigmund Freud foi um dos primeiros estudiosos a utilizar o termo narcisismo de maneira sistemática. Para ele, existe um narcisismo saudável, necessário para a construção da autoestima e da identidade.

Sem uma dose adequada de amor-próprio, ninguém consegue desenvolver autoconfiança.

Sem autoestima, torna-se difícil enfrentar desafios, estabelecer limites ou acreditar no próprio valor.

O problema surge quando o amor-próprio saudável dá lugar à grandiosidade excessiva.

Quando a admiração por si mesmo se transforma em necessidade constante de superioridade.

Quando o indivíduo deixa de perceber que outras pessoas possuem sentimentos, necessidades e direitos tão importantes quanto os seus.

Nesse momento, estamos diante de algo muito diferente da autoestima.

Estamos diante do narcisismo patológico.

Uma das maiores confusões populares consiste justamente em acreditar que pessoas narcisistas se amam demais.

Na realidade, muitos especialistas observam exatamente o contrário.

Por trás da aparência de autoconfiança, frequentemente existe uma fragilidade emocional significativa.

Imagine um castelo construído sobre fundações instáveis.

Por fora, ele parece imponente.

As torres impressionam.

Os salões encantam.

Tudo transmite força e segurança.

Mas basta uma tempestade mais intensa para revelar que sua estrutura não é tão sólida quanto parecia.

Algo semelhante acontece com muitos indivíduos narcisistas.

Sua autoestima depende de fatores externos.

Depende dos elogios.

Depende da admiração.

Depende do reconhecimento.

Depende da sensação de superioridade.

Quando essas fontes desaparecem, surgem reações emocionais intensas.

É por isso que críticas costumam ser tão difíceis para eles.

Mesmo observações pequenas podem ser interpretadas como ataques devastadores.

Mesmo discordâncias simples podem provocar explosões emocionais.

Mesmo limites saudáveis podem ser percebidos como ofensas intoleráveis.

A necessidade de proteção do ego torna-se tão grande que a pessoa passa a utilizar mecanismos psicológicos para preservar sua autoimagem.

Entre esses mecanismos estão a manipulação, a culpa, a vitimização, a distorção dos fatos e a desvalorização das pessoas ao redor.

Muitas vezes, quem convive com um narcisista começa a sentir que está sempre errado.

Passa a duvidar de sua própria percepção.

Questiona suas memórias.

Pede desculpas por situações que sequer provocou.

Pouco a pouco, a realidade parece se tornar confusa.

Essa dinâmica será explorada em profundidade nos próximos capítulos.

Mas antes de avançarmos, é importante compreender uma verdade fundamental.

O narcisismo não é apenas um problema individual.

É também um fenômeno social.

Vivemos em uma época que valoriza visibilidade, aparência, popularidade e validação constante.

As redes sociais transformaram curtidas em indicadores de aprovação.

A exposição tornou-se sinônimo de relevância.

A comparação passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas.

Naturalmente, isso não significa que as redes sociais criem narcisistas.

Mas podem funcionar como terreno fértil para comportamentos que já existiam.

A busca incessante por reconhecimento não nasceu com a internet.

Ela nasceu muito antes.

Nasceu no coração humano.

E talvez seja justamente por isso que a história de Narciso continua tão atual.

Mudaram as roupas.

Mudaram as tecnologias.

Mudaram os cenários.

Mas o espelho continua existindo.

A única diferença é que, hoje, ele cabe no bolso.

E milhões de pessoas carregam esse espelho consigo todos os dias.

Nos próximos capítulos, veremos como esse fenômeno aparece nos filmes, nas séries, nos contos de fadas e, principalmente, nos relacionamentos da vida real.

Porque compreender o narcisismo não é apenas entender determinadas pessoas.

É também compreender as armadilhas emocionais que todos nós precisamos aprender a reconhecer.